Estratégias para repensar a cadeia aeroespacial com foco em inovação e ESG

Discutimos alguns dos principais temas que estão moldando o setor (megaconstelações, impacto ambiental, insumos críticos) e como estruturar projetos robustos e financiáveis, e o caminho para repensar a cadeia de valor.
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ABGi Brasil

Time multidisciplinar especializado em estratégia e fomento para inovação, implementando projetos com resultados para o crescimento da sua organização.

O espaço se consolidou como um dos pilares da excelência tecnológica e um tema diretamente ligado à soberania, competitividade e resiliência de um país. Mas, ao mesmo tempo em que cresce a relevância estratégica, aumentam as pressões por sustentabilidade, segurança operacional e autonomia. É nesse ponto que o fomento à inovação ganha protagonismo, ele viabiliza investimentos ambiciosos (civis e militares) em observação, telecomunicações, transporte, navegação e exploração científica, reduzindo riscos técnicos e financeiros e acelerando a transformação que o setor precisa realizar.

Neste artigo, apresentamos os temas que estão moldando o setor a partir da análise da equipe ABGi Canadá, no relatório completo Between Sky and Space: The Major Challenges in Aerospace and Space. Abordaremos quais são seus principais desafios e como empresas podem posicionar projetos robustos, especialmente, quando a agenda de ESG e a necessidade de resiliência passam a ser critérios tão decisivos quanto a inovação em si no processo de mobilizar capital estratégico.

A importância do setor espacial

O setor espacial está no centro das estratégias de desenvolvimento e de competitividade internacional, com papel importante em desafios econômicos e sociais. Muito além de foguetes, na prática, se traduz em capacidades que influenciam decisões de impacto real, com por exemplo, dados de Observação da Terra (EO) e sistemas de navegação (GNSS) que ajudam a planejar infraestrutura, gerenciar recursos naturais e apoiar a adaptação climática.

Em um contexto de crescimento demográfico, destacam-se aplicações diretas e mensuráveis em eficiência e sustentabilidade, como:

  • Agricultura e segurança alimentar: agricultura de precisão com dados mais acurados para manejo de culturas, otimização de fertilizantes e irrigação, além de rastreio de rebanhos, gestão de zonas de pesca e alertas precoces de risco de escassez.
  • Gestão de água e ecossistemas: mapeamento e monitoramento de recursos hídricos, acompanhamento de infraestrutura de distribuição e saneamento, com redução de riscos sanitários e ambientais.
  • Planejamento urbano e infraestrutura: análise de distribuição populacional, disponibilidade de áreas abertas e necessidades de transporte, apoiando gestão de tráfego e redução de congestionamentos.
  • Transição energética: seleção de locais para solar e eólica, apoio a redes inteligentes e melhor distribuição de energia, reduzindo perdas.

Esse conjunto de usos reforça o argumento-chave que o setor espacial não inova de forma isolada, é um habilitador transversal de desenvolvimento, inovação e ESG. Por isso, o fomento à inovação para este setor não financia apenas satélites, ele financia capacidades que impactam cadeias produtivas inteiras.

6 Passos para criar um plano de negócios de inovação de sucesso

Crescimento acelerado e megaconstelações

Segundo o relatório Between Sky and Space: The Major Challenges in Aerospace and Space, desde 2015, o número de satélites enviados à órbita saltou de 213 para 2.893 em 2023, um aumento de 1.258%. Em 2023, já havia mais de 7.500 satélites em órbita, e projeções mencionadas apontam a possibilidade de chegar a 50.000 até 2030.

Esse crescimento é impulsionado principalmente por megaconstelações, conjunto de satélites interconectados implantados em órbita da Terra para fornecer serviços específicos, como comunicações ou observação. Somadas, iniciativas como Starlink, Kuiper, Qianfan, Guowang e outras pretendem ultrapassar 77.000 satélites em poucos anos, com a Starlink mirando 42.000 (cerca de 6.000 já operacionais). O ponto de atenção é que estamos ultrapassando, em poucos anos, a quantidade total lançada desde o início da era espacial, com consequências ambientais e econômicas ainda pouco compreendidas.

Na prática, a escala impõe desafios técnicos, reputacionais e regulatórios:

  • Proliferação de detritos: mais objetos em órbita aumentam o risco de colisão e exigem mais manobras de evasão, com consumo de combustível, redução de vida útil e aumento de custos operacionais.
  • Efeito cascata (colisões gerando mais fragmentos): em altas velocidades relativas, pequenas colisões podem destruir um satélite e amplificar o problema.
  • Restrições a lançamentos: órbitas congestionadas dificultam janelas de lançamento e elevam preocupações de segurança, inclusive para acesso à Estação Espacial Internacional (ISS) em emergências.
  • Falta de regras após o fim da vida: ausência de regulação internacional para a retirada, ou plano de transferência de satélites inativos, que atualmente permanecem em órbita após o término de sua missão.

Impactos do setor aeronáutico

Apesar dos significativos avanços tecnológicos, a aviação continua sendo um dos meios de transporte mais poluentes. Atualmente, a aviação é responsável por cerca de 2% das emissões globais de dióxido de carbono (CO2), mas esse número pode subir para 16% até 2050. Embora essa porcentagem possa parecer pequena, ela é uma grande contribuinte para o aquecimento global, devido ao rápido aumento do tráfego ligado ao aumento do número de passageiros e do volume de comércio, resultando em um crescimento recorde nas emissões.

O setor ainda enfrenta dificuldade de produção de aeronaves com falta de mão de obra qualificada. A meta de reduzir o ciclo de produção de uma nova aeronave de oito para quatro anos, é sustentada por digitalização, robotização, sensores conectados e manutenção preditiva.

Outros caminhos promissores incluem o uso de biocombustíveis e o desenvolvimento de aeronaves elétricas, duas soluções que poderiam reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa.

A transformação digital surge como uma promessa que não se resume apenas a melhorar a produtividade, também é um fator importante para a sustentabilidade, pois possibilita:

  • Acelerar o desenvolvimento de novas tecnologias reduzindo erros nas fases de projeto;
  • Reduzir os ciclos de desenvolvimento simulando e testando virtualmente inovações tecnológicas com total segurança;
  • Facilitar o aumento da produção, garantindo o controle de qualidade ideal.

Nesse contexto, é vital investir em pesquisa e desenvolvimento para aumentar a eficiência energética da indústria aeronáutica e reduzir seu impacto no meio ambiente.

Clima e infraestrutura

Da mesma forma que as atividades humanas impactam e modificam o meio ambiente, acelerando mudanças críticas para a qualidade de vida, as mudanças climáticas também representam uma ameaça crescente para os setores espacial e de aviação, aumentando a frequência e a gravidade dos desastres naturais. Esses fenômenos afetam a infraestrutura, as operações e a segurança, exigindo investimentos em adaptação e resiliência.

Diante desses desafios, é essencial integrar estratégias de gestão de riscos e modernizar os equipamentos para garantir a continuidade dos negócios e minimizar o impacto econômico e ambiental. Assim, projetos de fomento à inovação ganham ainda mais força quando endereçam, ao mesmo tempo, desempenho tecnológico e resiliência de suprimentos como a substituição de materiais, reciclagem, qualificação de fornecedores, rastreabilidade, reengenharia de componentes e design-to-availability.

Cadeias críticas e geopolítica

Outro argumento central para a necessidade de inovação na cadeia do setor aeroespacial é a vulnerabilidade a interrupções em matérias-primas e componentes críticos. Há quatro motivos particularmente fortes para embasar esse risco:

  • Terras raras: a produção mundial é concentrada na China, que responde por 86% da oferta. Sendo que a demanda global pode quadruplicar até 2040, ampliando a pressão sobre disponibilidade e preços.
  • Semicondutores: componentes essenciais para satélites e sistemas embarcados. A empresa taiwanesa TSMC controla 62% das receitas globais do setor e que 91% da produção se concentra em cinco empresas, majoritariamente asiáticas.
  • Impacto financeiro de disrupções: crises recentes (tensões geopolíticas, guerras, desastres naturais, COVID-19) evidenciaram fragilidades em cadeias globais.
  • Titânio: material crítico utilizado na fabricação de componentes com alta volatilidade de preço e dependência de regiões conflituosas. A Rússia é o segundo maior produtor global de titânio e, em média, 40% do titânio usado no setor vem da Rússia. Em 2022, os preços do titânio subiram 32%.

O que isso muda na prática para projetos de fomento à inovação

Com base nos desafios e oportunidades, propostas mais competitivas e tecnologias disruptivas no setor tendem a combinar quatro dimensões:

  1. Inovação com sustentabilidade mensurável: foco em reduzir impactos inclusive em fim de vida, descarte e detritos, para melhorar eficiência e evidenciar contribuição para metas ESG.
  2. Resiliência e autonomia: reduzir dependências críticas de materiais, semicondutores, fornecedores, com alternativas tecnológicas e planos de mitigação.
  3. Segurança e conformidade desde o desenho: eco-design, aumento de produção sem perda de qualidade, indicadores para metrificar a descarbonização.
  4. Ampliar capacidade de produção: foco em digitalização, automação, robotização e desenvolvimento de talentos.

Fomento para o setor

Para empresas espaciais e aeroespaciais, que frequentemente enfrentam longos ciclos de desenvolvimento e retornos incertos sobre o investimento, essa situação pode afastar investidores, particularmente o capital de risco, que tradicionalmente tendem a favorecer setores com ciclos curtos e menores riscos tecnológicos. Logo, o investimento público desempenha um papel essencial para o desenvolvimento de projetos de PD&I.

O desenvolvimento de novas formas de financiamento, o crescimento das parcerias público-privadas e a evolução dos modelos de negócios estão abrindo perspectivas para garantir o futuro a longo prazo do setor espacial e assegurar sua independência. O setor pode contar com algumas estratégias para financiar suas operações e seus projetos inovadores:

  • O crescimento dos serviços espaciais comerciais (ex: SpaceX e BlueOrigin);
  • Exploração de novos modelos de financiamento híbrido e parcerias público-privadas;
  • Desenvolvimento de tecnologias de dupla utilização (civil e militar);
  • Fomento internacional com parcerias estratégicas para co-desenvolvimento;
  • Redes de colaboração e recursos públicos para POCs.

Visão estratégica para transformar a cadeira aeroespacial

Os setores espacial e aeronáutico estão em um ponto de virada decisivo em sua história. Diante de emergências climáticas, rápidas mudanças tecnológicas e geopolíticas, exige-se uma abordagem integrada para garantir um futuro sustentável e competitivo.

É aqui que muitas organizações travam: abordamos no artigo os desafios macros do setor, mas no dia a dia, exige transformar desafios em decisões, projetos, orçamento, metas e execução. Segundo dados da Bain&Company, 70% das empresas não conseguem executar seus planos de transformação e que, frequentemente, são abandonados por falta de retorno mensurável, falta de recursos financeiros e impacto restrito de projetos que não geram resultados significativos.

O Framework MAESTRO foi desenhado para enfrentar esse gap entre ambição e entrega, organizando a transformação em uma jornada que vai da ideia à criação de uma “obra-prima”.

jornada maestro

Na prática, para repensar a cadeia aeroespacial, a ABGi acredita o caminho está na aplicação dos cinco pilares do MAESTRO para estruturar decisões e execução:

  • REPERTÓRIO: Levantamento de inteligência de mercado e tendências para qualificar o diagnóstico e priorizar apostas tecnológicas e de ESG com base em dados, conectando oportunidades, riscos de cadeia (insumos críticos, semicondutores, logística) e cenários regulatórios.
  • POLIFONIA: Construção e ativação de ecossistemas, parcerias e colaboração para acelerar soluções, além de conectar sustentabilidade e inovação como uma agenda única (não paralela). É especialmente relevante em aeroespacial, onde desafios exigem integração de competências e, muitas vezes, cooperação com atores externos e de outros setores.
  • MAESTRIA: Gestão dos recursos para PD&I, alinhamento do portfólio, governança e capital humano, além de estruturar e captar recursos financeiros internos e externos. É aqui que o fomento à inovação deixa de ser pontual e vira estratégia de mix, com pipeline de oportunidades e gestão de risco.
  • ARRANJOS: Busca de eficiência ampliada para criar base operacional e financeira para sustentar a transformação. Em cadeias aeroespaciais pressionadas por cadência, qualidade e rastreabilidade, isso envolve diagnóstico de maturidade, modelagem de cenários, excelência operacional, KPI e gestão de performance, além de resiliência digital e proteção de dados.
  • MODULAÇÃO: O objetivo é criar adaptabilidade ágil com governança ambidestra para equilibrar operação atual e exploração de novas oportunidades, com gestão ágil potencializada por dados e IA, sustentando mudanças sem perder controle de risco.

Se a sua empresa quer capturar oportunidades no eixo inovação-ESG com mais previsibilidade e robustez, o próximo passo é conversar com a ABGi para mapear um pipeline de iniciativas e transformar prioridades em projetos financiáveis.

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