Desvendando o Inventário de Carbono

Entenda o que é e como fazer um inventário de carbono, uma ferramenta estratégica para empresas que desejam crescer de forma sustentável e atender às novas exigências legais.
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Marco Rossi

Mestre em Química pela UFLA e doutor Físico-Química de Materiais pela USP. Na ABGi, atua na estratégia de recursos e descarbonização para o setor de mineração e automotivo.

Em um cenário de competitividade global crescente, não basta que diferentes companhias ofereçam produtos e serviços de qualidade com alto nível de tecnologias embarcadas. É preciso ir além e garantir a compatibilidade com fatores como sustentabilidade e adequação à normas ambientais e sociais para garantir diferenciação para o consumidor e atração de novos investidores.

Recentemente, a publicação de leis federais como a Lei 14902 de 27 de junho de 2024 (que estabeleceu os requisitos obrigatórios para comercialização de veículos no país) e a lei 15.042, de 11 de dezembro de 2024 (que regulamenta a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões) são evidências claras desse aumento de rigor quanto à consciência ambiental em processo, produtos e serviços.

Ambas tratam, dentre outros aspectos, da gestão dos gases de efeito estufa gerados, como o CO2. A Lei 14.902/2024, por exemplo, traz consigo a obrigatoriedade de que empresas montadoras do setor automotivo realizem e reportem ao governo federal tanto inventários de carbono de suas plantas/instalações, como pegada de carbono de seus produtos.

Para auxiliar no entendimento dessas novas obrigações, vamos tratar dos conceitos de inventário e pegada de carbono para que sua organização alcance a sustentabilidade com resultados.

O que é e o que mede o Inventário de Carbono

Um inventário de carbono é um levantamento sistemático e abrangente das emissões de gases de efeito estufa (GEE) geradas por uma organização em um determinado período. Ele funciona como um raio-x ambiental, revelando as fontes e a quantidade de gases emitidos como dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O) e outros, que contribuem para o aquecimento global. Mais do que um simples registro, o inventário é uma ferramenta base para auxiliar na compreensão do impacto climático de uma empresa, permitindo a identificação de oportunidades de redução de emissão, a definição de metas e a comunicação transparente com clientes e investidores.

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Ao medir as emissões de gases estufa, o inventário de carbono não se limita apenas ao que a empresa emite diretamente em suas instalações e planta produtivas. Ele se aprofunda em uma análise detalhada, categorizando as emissões em três escopos distintos, que oferecem uma visão mais ampla do perfil da organização.

Os três escopos foram estabelecidos por metodologias reconhecidas internacionalmente, como o GHG Protocol. Essa categorização permite que as empresas identifiquem e gerenciem suas emissões de forma mais precisa, abrangendo desde as fontes diretas até as indiretas, que muitas vezes são as mais desafiadoras de quantificar.

Escopo 1: As emissões que você controla diretamente

O chamado Escopo 1 engloba as emissões diretas de GEE provenientes de fontes que são de propriedade ou controladas pela empresa. São aquelas que a organização tem controle operacional direto e, portanto, maior capacidade de gerenciar e reduzir.

Dentro do Escopo 1, as emissões são subdivididas em categorias para facilitar a identificação e o monitoramento:

Emissões Estacionárias de Combustão

Refere-se à queima de combustíveis em fontes fixas, como caldeiras, fornos, geradores e aquecedores, utilizados para aquecimento, geração de energia ou processos industriais.

Exemplos: caldeiras, fornos, queimadores, turbinas, aquecedores, incineradores, motores e geradores.

Emissões Móveis de Combustão

Abrange as emissões resultantes da queima de combustíveis em fontes móveis de propriedade ou controladas pela empresa com o objetivo principal de transporte. Isso inclui a frota de veículos da empresa (carros, caminhões, ônibus), equipamentos agrícolas, máquinas de construção e embarcações.

Exemplo: Emissões durante o funcionamento de carros, motocicletas, caminhões, ônibus, tratores e empilhadeiras.

Emissões de Processos Industriais

São as emissões de GEE liberadas diretamente de processos físicos ou químicos que transformam materiais, com exceção de processos que envolvem combustão.

Exemplos incluem a produção de cimento (liberação de CO2 da calcinação do calcário), a produção de amônia, a fabricação de produtos químicos e a produção de metais.

Emissões Fugitivas

Correspondem à emissões geralmente não intencionais, que não passam por chaminés, drenos, tubos de escape ou outra abertura funcionalmente equivalente. A liberação (escape) ocorre durante a produção, processamento, transmissão, armazenagem ou uso do gás.

Exemplos: equipamentos de ar-condicionado, extintores de incêndio, gasodutos (gás natural), aterros sanitários, etc.

Emissões de atividades agrícolas

Emissões não-mecânicas de atividades de agricultura ou pecuária.

Exemplos: utilização de fertilizantes nitrogenados, preparação de solos para plantio, emissões associadas a rebanhos de ruminantes (fermentação entérica), etc.

Emissões relacionadas a mudanças no uso do solo

Emissões não-mecânicas de atividades que promovam mudanças no uso do solo que podem gerar fluxos de CO2 (emissões e remoções). Exemplos: recuperação de pastagens em áreas de florestas, desmatamento de área florestal para construção de uma indústria.

Emissões de tratamento de resíduos e efluentes

Emissões de GEE provenientes do tratamento de resíduos sólidos e de efluentes líquidos. Exemplos: compostagem de resíduos alimentares (CO2 e CH4), manejo de dejeto de animais (CH4, N2O), tratamento de esgoto (CH4 e N2O), resíduos aterrados (CH4), incineração de resíduos perigosos (CO2, CH4 e N2O).

Leia também Descarbonização no Setor Automotivo: Desafios e Oportunidades.

Escopo 2: A energia que você compra e consome

O Escopo 2 refere-se às emissões indiretas de GEE relacionadas à aquisição e consumo de energia gerada por outras empresas como eletricidade e vapor, por exemplo.

Para todos os casos, a quantidade de emissões depende da matriz energética do local onde a eletricidade é gerada (por exemplo, se é gerada a partir de fontes fósseis ou renováveis). O cálculo dessas emissões geralmente utiliza fatores de emissão médios da rede elétrica ou fatores específicos do fornecedor, se disponíveis.

Aquisição de energia elétrica

Emissões relacionadas à aquisição de energia elétrica gerada por terceiros.

Exemplos: emissões ocasionadas pela geração da energia elétrica a partir de usinas hidrelétricas ou termelétricas. 

Aquisição de energia térmica

Emissões relacionadas à aquisição de energia térmica gerada por terceiros.

Exemplos: emissões ocasionadas pela geração de energia térmica a partir usinas termelétricas (UTE).

Perdas por transmissão e distribuição

Emissões relacionadas à parcela de energia elétrica perdida pelos sistemas de transmissão e distribuição.

Exemplo: Emissões relacionadas à produção da parcela de energia perdida nos fios de transmissão elétrica.

Escopo 3: A complexidade da cadeia de valor

O Escopo 3 é o mais abrangente e, geralmente, o mais desafiador de quantificar. Ele inclui todas as outras emissões indiretas de GEE que ocorrem na cadeia de valor da empresa, mas que não são de propriedade ou controladas por ela. Essas emissões são geradas por atividades da cadeia de valor upstream (antes da operação da empresa) e downstream (depois da operação da empresa).

O GHG Protocol divide o Escopo 3 em 15 categorias. As categorias mais comuns e relevantes de emissões de escopo 3 para a maioria das empresas incluem:

Bens e Serviços adquiridos

Emissões associadas à produção de todos os bens e serviços que a empresa compra, desde matérias-primas até serviços de consultoria. Isso inclui a energia e os materiais utilizados na fabricação dos produtos que a empresa adquire.

Exemplo: emissões que ocorreram durante a fabricação ou processamento das matérias-primas.

Bens de Capital

Emissões relacionadas à produção de bens de capital que a empresa utiliza, como edifícios, máquinas e equipamentos.

Exemplos: emissões que ocorrem durante a fabricação desses ativos antes de serem adquiridos pela empresa.

Atividades Relacionadas a Combustível e Energia (não incluídas no Escopo 1 ou 2)

Emissões de GEE associadas à produção, transporte e distribuição de combustíveis e energia que a empresa consome, mas que não são diretamente queimados ou gerados por ela.

Exemplos: extração de combustíveis, o refino e o transporte até as instalações da empresa.

Transporte e Distribuição (upstream e downstream)

Emissões de GEE provenientes do transporte de produtos e materiais, tanto antes (upstream) quanto depois (downstream) da operação da empresa.

Exemplos: o transporte de matérias-primas de fornecedores (upstream), o transporte de produtos acabados para clientes (downstream) e o transporte entre as instalações da empresa, quando realizado por terceiros.

Resíduos Gerados em Operações

Emissões de GEE provenientes do tratamento e descarte de resíduos sólidos e líquidos gerados nas operações da empresa, como aterros sanitários e tratamento de efluentes.

Exemplo: Emissões de metano de aterros.

Viagens a Negócios

Emissões de GEE resultantes de viagens de funcionários a negócios, incluindo viagens aéreas, rodoviárias e ferroviárias, quando realizadas em veículos não pertencentes ou controlados pela empresa.

Exemplo: Viagem aérea para fornecedor de matéria prima ou visita a cliente.

Deslocamento de Funcionários

Emissões de GEE associadas ao transporte diário de funcionários de suas casas para o trabalho e vice-versa, utilizando meios de transporte como carros particulares, transporte público ou bicicletas.

Exemplo: Emissões durante o deslocamento de funcionários usando veículo próprio ou transporte público.

Bens Arrendados (upstream e downstream)

Emissões de GEE de ativos que a empresa arrenda (upstream) ou que arrenda a terceiros (downstream), onde a empresa não tem controle operacional direto sobre as emissões.

Exemplo: emissão de equipamento arrendado a empresa terceira.

Processamento de Produtos Vendidos

Emissões de GEE de produtos intermediários vendidos pela empresa que são processados por terceiros antes do uso final.

Exemplo: Venda de produto produtos que requer processamento adicional por seus clientes.

Uso de Produtos Vendidos

Emissões de GEE que ocorrem durante o uso dos produtos vendidos pela empresa.

Exemplo: emissões que ocorrem durante o uso de produtos eletrodomésticos vendidos como refrigeradores e fogões.

Tratamento de Fim de Vida de Produtos Vendidos

Emissões de GEE associadas ao descarte ou tratamento de produtos vendidos pela empresa no final de sua vida útil, como aterros sanitários, incineração ou reciclagem.

Exemplo: processos de reciclagem de plástico que compunham o produto.

Franquias

Emissões de GEE de operações de franquias que não são de propriedade ou controladas pela empresa, mas que utilizam sua marca ou modelo de negócio.

Investimentos

Emissões de GEE associadas a investimentos da empresa, como participações acionárias em outras empresas ou projetos de investimento.

Fatores de Emissão

Para transformar dados de atividade (como litros de combustível consumido ou quilowatts-hora de eletricidade utilizada) em emissões de GEE, utilizamos os chamados fatores de emissão.

Um fator de emissão é um coeficiente que relaciona a quantidade de um gás estufa liberado na atmosfera para uma unidade de atividade. Por exemplo, um fator de emissão para gasolina indicará quantos quilogramas de CO2 são emitidos por litro de gasolina queimado. Esses fatores são cruciais para a precisão do inventário e são desenvolvidos por instituições de pesquisa, agências governamentais e organizações internacionais, baseando-se em dados científicos e medições empíricas.

A profundidade e a especificidade dos fatores de emissão são vitais. Fatores genéricos podem levar a estimativas menos precisas, enquanto fatores específicos para o tipo de combustível, tecnologia ou região geográfica garantem maior acurácia. A escolha e a aplicação correta desses fatores são etapas críticas no processo de elaboração do inventário, exigindo conhecimento técnico e acesso a bases de dados confiáveis.

gCO2 Equivalente

Nesse ponto, é muito importante mencionar que diferentes gases de efeito estufa possuem potenciais distintos de aquecimento global (GWP – Global Warming Potential). Desse modo, cada gás tem uma capacidade diferente de reter calor na atmosfera ao longo do tempo.

Para padronizar a medição e permitir a comparação e agregação das emissões de diversos gases produzidos por diferentes indústrias, utiliza-se a unidade de dióxido de carbono equivalente (gCO2e ou tCO2e). Essa unidade converte as emissões de outros gases (como metano e óxido nitroso) para o equivalente em CO2, com base em seus respectivos GWPs.

Por exemplo, o metano (CH4) tem um GWP cerca de 28 vezes maior que o CO2 em um período de 100 anos. Isso significa que uma tonelada de metano emitida tem o mesmo potencial de aquecimento global que 28 toneladas de CO2.

A conversão para gCO2e é essencial para que o inventário de carbono apresente um número único e compreensível do impacto climático total da empresa, facilitando a definição de metas de redução e a comunicação de resultados de forma consistente e comparável.

Metodologia GHG Protocol para um inventário confiável

Para garantir a credibilidade, a comparabilidade e a auditabilidade dos inventários de carbono, é fundamental seguir uma metodologia reconhecida internacionalmente. O GHG Protocol (Greenhouse Gas Protocol) é a estrutura mais amplamente utilizada no mundo para a contabilidade e relatórios de emissões de GEE. Desenvolvido pelo World Resources Institute (WRI) e pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), ele fornece diretrizes detalhadas para a quantificação e o gerenciamento das emissões em todos os escopos.

A robustez do GHG Protocol reside em seus princípios de relevância, completude, consistência, transparência e acurácia. Ele permite que as empresas identifiquem suas principais fontes de emissão, estabeleçam linhas de base, monitorem o progresso e reportem suas emissões de forma padronizada.

No Brasil, o GHG Protocol foi adaptado à realidade nacional por meio de uma parceria entre o WRI e a Fundação Getulio Vargas (FGV), resultando no Programa Brasileiro GHG Protocol. Essa adaptação considera as especificidades do contexto brasileiro, como a matriz energética e as fontes de emissão locais, tornando a metodologia ainda mais relevante e aplicável para as empresas que operam no país.

Oportunidade para a sustentabilidade empresarial

Após a leitura de tantos conceitos, escopos e necessidade de conversão de dados, é possível perceber o quanto é importante contar com auxílio especializado para garantir o máximo de exatidão, rastreabilidade e segurança aos dados reportados no inventário.

Na ABGi, um de nossos serviços é justamente apoiar a sua empresa na elaboração ponta-a-ponta de todo o inventário seguindo as normas do GHG Protocol passando por todas as etapas aqui mencionadas. Conte com a gente para garantir toda a segurança e confiabilidade em seus relatórios de inventário.

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