Cidades Inteligentes: desafios e caminhos para a construção sustentável

Entenda como Cidades Inteligentes conectam temas como TICs, transformação digital, e construção civil para promover inovação com impacto. Aplicamos a ferramenta de cenarização 4x4 para criar cenários futuros possíveis.
Foto de Fernanda Elisa

Fernanda Elisa

Graduada em engenheira civil pela UFLA. Atua na ABGi, apoia empresas a alavancar projetos com uso de incentivos fiscais e oportunidades de fomento.

Antes mesmo de discutirmos o conceito de cidades inteligentes, é fundamental compreendermos quais são os elementos, serviços e características urbanas que sustentam essa definição. Afinal, o que torna uma cidade verdadeiramente inteligente? 

De maneira geral, costuma-se associar cidades inteligentes a ambientes em que tecnologia, pessoas e infraestrutura interagem de forma harmônica, promovendo qualidade de vida, eficiência dos serviços públicos e desenvolvimento sustentável. Contudo, cabe refletirmos: estamos falando de um cenário realista ou de uma visão utópica digna de roteiros de ficção científica? 

Neste artigo, abordaremos sobre o que define uma Cidade Inteligente, premissas para uma construção sustentável, reflexões sobre cenários possíveis a partir da aplicação da ferramenta de cenarização 4×4, e caminhos para agir agora.

O que define uma Cidade Inteligente: Consumo e sustentabilidade

De acordo com a ISO 37122:2019 – Sustainable Cities and Communities — Indicators for Smart Cities, uma cidade inteligente é aquela que utiliza tecnologias de informação e comunicação (TICs) para melhorar a qualidade de vida, eficiência das operações urbanas, serviços e competitividade, atendendo às necessidades das gerações presentes e futuras, sempre respeitando os limites ambientais e promovendo inclusão social. 

Além disso, entidades como a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT NBR ISO 37120:2021) e o relatório Cities in Motion (IESE Business School, 2023) destacam que os pilares que estruturam as cidades inteligentes envolvem temas como:

Diagnóstico MOVER
  • construções sustentáveis,
  • mobilidade urbana eficiente,
  • conforto térmico,
  • infraestrutura resiliente,
  • internet das coisas (IoT),
  • conectividade digital e
  • promoção da diversidade cultural. 

Diante dessa perspectiva e do desafio de projetar o futuro urbano, torna-se imprescindível refletirmos sobre como as cidades evoluirão, especialmente guiada por dois eixos centrais e interdependentes: o consumo globalizado e a sustentabilidade. Esses vetores representam forças irreversíveis que impactam diretamente o planejamento urbano e as formas de habitação. 

Cabe aqui um breve resgate conceitual: sustentabilidade, no contexto das cidades, refere-se à capacidade de gerir os recursos naturais de maneira responsável, assegurando sua preservação para as gerações futuras, enquanto se busca o desenvolvimento social e econômico. 

Projetando uma construção sustentável

Nesse contexto, surge uma questão fundamental: Como a construção civil pode abrigar, com qualidade, dignidade, sustentabilidade e conforto térmico, uma população global que deve alcançar 9 bilhões de pessoas, sem ultrapassar os limites planetários? 

Essa pergunta ganha ainda mais relevância diante do agravamento das mudanças climáticas, cujos efeitos são particularmente severos em países localizados em zonas tropicais. Para explorar possíveis futuros urbanos diante desses desafios, podemos recorrer à ferramenta de cenarização 4×4, do Andrew Curry, autor de The Scenarios Question, que auxilia na visualização de diferentes cenários, considerando variáveis críticas e incertezas estruturantes. 

Premissas que definem o futuro

  • Crescimento urbano e populacional acelerado, especialmente no hemisfério Sul. 
  • A intensificação da crise climática com aumento de eventos extremos, secas, enchentes e ondas de calor. 

Incertezas Críticas para o Setor da Construção civil, especialmente na área de conforto térmico

Mudança na Demanda por Habitação e Espaços Urbanos: 

  • A sociedade exigirá construções mais ecológicas, multifuncionais, acessíveis e resilientes? 
  • Ou continuará priorizando crescimento rápido, consumo excessivo e obras de alto impacto ambiental?

Conectividade de Mercados e Regulação: 

  • O setor operará em um contexto de mercados e cadeias de fornecimento globalizadas, com normas compartilhadas e inovação distribuída? 
  • Ou em ambientes fragmentados, com regulações locais, baixa integração tecnológica e desigualdade de acesso? 

Possíveis cenários

Diante destas questões, aplicando a ferramenta, a equipe da ABGi encontrou os seguintes possíveis cenários: 

  1. Consumo Desenfreado
  2. Sobrevivência dos Mais Privilegiados
  3. Sustentabilidade Open-Source
  4. O Local é o Novo Global
cenario
Cenário 1. Alto consumo e uso desenfreado de recursos

Neste cenário, o modelo atual de desenvolvimento urbano e de construção civil se intensifica, com forte ênfase no consumo massivo de recursos naturais, materiais e energia. As cidades continuam crescendo de forma acelerada, guiadas pelo lucro e pela lógica do mercado global, mas sem incorporar práticas sustentáveis efetivas. 

Características principais: 

  • Expansão urbana desordenada. 
  • Construções rápidas e baratas, com baixa preocupação ambiental. 
  • Elevado impacto ambiental e social. 
  • Conforto e qualidade restritos a camadas privilegiadas da população. 
  • Agravamento das mudanças climáticas e desigualdades urbanas.  

Exemplo real aproximado: Megacidades que crescem sem planejamento adequado, como ocorre em parte das periferias urbanas de países em desenvolvimento.

Cenário 2. Sobrevivência dos Mais Privilegiados

Aqui, as soluções sustentáveis e tecnológicas avançadas de construção civil são implementadas, mas o acesso a elas é restrito às elites econômicas e grandes corporações. As cidades se tornam espaços de forte segregação, onde apenas os mais privilegiados desfrutam de construções resilientes, eficientes e confortáveis. 

Características principais: 

  • Proliferação de condomínios fechados inteligentes e sustentáveis. 
  • Gentrificação e exclusão social. 
  • Avanços tecnológicos restritos a áreas privilegiadas. 
  • Aumento das desigualdades urbanas. 
  • Sustentabilidade restrita a bolhas urbanas. 

Exemplo real aproximado: Cidades com áreas sustentáveis em grandes metrópoles, inacessíveis à maioria da população. 

Cenário 3. Sustentabilidade Open-Source

Neste cenário, a sustentabilidade deixa de ser um privilégio e se torna um direito coletivo, impulsionado pelo acesso aberto ao conhecimento e a tecnologias sustentáveis. As soluções para construções sustentáveis são amplamente compartilhadas, adaptadas e aplicadas localmente, com foco em reduzir o consumo de recursos e democratizar o acesso à qualidade de vida urbana. 

Características principais: 

  • Tecnologias sustentáveis de código aberto. 
  • Iniciativas comunitárias de construção e retrofit sustentável. 
  • Incentivo à economia circular e ao reaproveitamento de materiais. 
  • Integração de inovação e inclusão social. 
  • Cidades mais resilientes e colaborativas. 

Exemplo real aproximado: Iniciativas como o movimento WikiHouse, que compartilha projetos de casas sustentáveis de baixo custo, ou programas municipais de retrofit sustentável em bairros populares. 

Cenário 4. O Local é o Novo Global

Aqui, as cidades e comunidades adotam uma abordagem radicalmente local para lidar com os desafios urbanos. Há uma valorização do conhecimento tradicional, dos recursos locais e de técnicas construtivas adaptadas ao clima e à cultura regional. O consumo é reduzido, e a globalização dá lugar a redes locais de produção e inovação. 

Características principais: 

  • Fortalecimento de cadeias produtivas locais. 
  • Uso de materiais e técnicas regionais sustentáveis. 
  • Arquitetura bioclimática e adaptada ao contexto. 
  • Redução da pegada ecológica das construções. 
  • Cidades mais autônomas e resilientes. 

Exemplo real aproximado: Projetos de ecovilas, bairros de baixo carbono e movimentos de arquitetura vernacular adaptada às mudanças climáticas. 

Algumas reflexões sobre os possíveis futuros

Embora os cenários sejam projeções futuras, eles revelam riscos e oportunidades que já estão se configurando no presente. A forma como governos, empresas e a sociedade civil agirem hoje irá influenciar qual desses futuros se tornará mais provável. 

Principais implicações: 

  • Há janela de oportunidade para transformar conhecimento técnico e inovações em soluções acessíveis e sustentáveis. 
  • A desigualdade no acesso às tecnologias urbanas e às soluções de construção já está em curso e tende a se aprofundar se não houver intervenção. 
  • As mudanças climáticas já afetam o planejamento urbano, especialmente em países tropicais, exigindo ações de adaptação imediatas. 
  • A busca por soluções locais e colaborativas está ganhando força e pode ser um vetor de transformação se apoiada estrategicamente. 

Cidades inteligentes: Recomendações para agir agora

Política e Regulação

  •  Estabelecer diretrizes e incentivos para construções sustentáveis, obrigando o uso de materiais de baixo impacto e soluções de eficiência energética. 
  • A ABGi atua como parceira estratégica na transição para uma construção civil mais sustentável, resiliente e alinhada às metas climáticas globais, com expertise internacional e profundo conhecimento em incentivos fiscais e inovação sustentável. 

Inovação Aberta e Tecnologia

  • Investir em plataformas de compartilhamento de conhecimento e tecnologias de construção sustentável (ex.: modelos open-source, repositórios de boas práticas). 
  • Incentivar o uso de Internet das Coisas (IoT) para monitoramento ambiental e eficiência em edifícios, priorizando acessibilidade dessas soluções. 

Fortalecimento de Soluções Locais

  • Apoiar cadeias produtivas regionais de materiais sustentáveis e técnicas construtivas vernaculares adaptadas ao clima. 
  • Estimular projetos-piloto de bairros sustentáveis e resilientes em diferentes contextos urbanos. 
Caminho para inovação

Construir cidades sustentáveis e resilientes não é mais uma opção futura, é uma necessidade presente. Os cenários explorados mostram que o caminho que seguiremos depende diretamente das escolhas que fazemos hoje. A construção civil, como alicerce das transformações urbanas, deve ser guiada por inovação, inclusão e responsabilidade ambiental.  

A ABGi pode apoiar empresas na transformação de ambição em execução, conectando tendências globais, requisitos normativos, e engenharia financeira para alavancar as iniciativas inovação e ESG.

Com experiência internacional e domínio em instrumentos de fomento e incentivos (como Fundo Clima, Lei do Bem e subvenções econômicas) a ABGi contribui para estruturar projetos, inteligência de mercado e gestão estratégica da inovação e viabilizar soluções comerciais de forma colaborativa, eficiente e sustentável.

Se sua organização busca transformar iniciativas urbanas e de construção sustentável em projetos financiáveis, mensuráveis e alinhados às metas climáticas, o próximo passo é conversar com a ABGi para mapear oportunidades, desenhar a estratégia e acelerar a implementação.

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