Captação de recursos para inovação em cooperativas 

A inovação tem se revelado um pilar crucial para o avanço e a sustentabilidade das cooperativas no Brasil. Confira as etapas e boas práticas para a captação de recursos.
Rafael Barros

Rafael Barros

Mestre em Entomologia Agrícola, Doutor e Pós-Doutor em Bioquímica e Biologia Molecular pela UFV. Na Abgi, atua na avaliação de projetos para a Lei do Bem e na escrita de projetos de subvenção econômica.

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Como as cooperativas podem aderir à captação de recursos à inovação

O cooperativismo, uma filosofia de organização econômica que valoriza a colaboração e a equidade, é um catalisador potente para o desenvolvimento socioeconômico sustentável. Dentro deste contexto, o avanço contínuo emerge como um pilar crucial, fomentando a evolução e a competitividade das cooperativas.

Uma pesquisa pioneira conduzida pelo Sistema OCB (Organização das Cooperativas do Brasil) evidencia essa tendência, reunindo insights de quase 500 cooperativas de diversos ramos e regiões do país. Realizada entre novembro de 2020 e fevereiro de 2021, a pesquisa destaca uma crescente consciência sobre a necessidade de inovar, com 84% das cooperativas reconhecendo a importância da inovação para a competitividade no setor.

Entretanto, desafios como falta de organização, ideias, projetos e recursos específicos para inovação ainda persistem, sinalizando um terreno fértil para a captação de recursos e parcerias estratégicas que podem catalisar a inovação no cooperativismo. Ao promover a inovação e a melhoria contínua, as cooperativas não apenas fortalecem sua posição no mercado, mas também cultivam um ecossistema de crescimento e sustentabilidade, refletindo os valores cooperativistas de solidariedade e responsabilidade mútua.

E como as cooperativas podem superar esses desafios?

A resposta pode estar em cultivar uma cultura de inovação robusta, apoiada por estratégias bem definidas e recursos adequados.

No texto a seguir, vamos desbravar o caminho das pedras, elucidando como a captação de recursos e o apoio estratégico podem acelerar o avanço contínuo no cenário cooperativista, alinhando-se à essência do cooperativismo e contribuindo para um setor mais robusto e competitivo.

Conheça os tipos de oportunidades de fomento existentes

As oportunidades para se captar recursos para inovação se distribuem em três formas de apoio:

  • apoio financeiro direto,
  • indireto, e
  • outras formas de apoio.

Entenda melhor esses conceitos no artigo Detalhando o Mapa de Fomento à Inovação e ESG.

Apoio financeiro direto

Viabiliza o aporte de recursos diretamente para as atividades inovadoras das organizações. Neste contexto, destacam-se os recursos reembolsáveis, recursos não reembolsáveis e recursos humanos.

Os recursos não reembolsáveis são financiamentos concedidos a organizações para impulsionar inovações, sem a necessidade de devolução. Diversos atores do ecossistema de fomento, como a FINEP, BNDES, EMBRAPII, Fundações de Amparo à Pesquisa Estaduais (FAPs), entre outros, disponibilizam estes recursos por meio de chamadas específicas. Embora esses recursos não demandem reembolso, as organizações beneficiadas geralmente são obrigadas a fornecer uma contrapartida financeira, ou seja, investir um certo percentual do valor total do projeto.

Ainda dentro do apoio direto, os recursos reembolsáveis são empréstimos especiais destinados ao financiamento de projetos de inovação. Eles se destacam pelas condições favoráveis, oferecendo taxas de juros mais atrativas, prazos de carência prolongados e períodos mais extensos para a amortização, quando comparados aos bancos convencionais.

Esses recursos podem financiar desde estudos preliminares até a execução de unidades industriais pioneiras. Adicionalmente, apoiam a inovação contínua, abrangendo investimentos em infraestrutura de PD&I e aquisição de tecnologias, fortalecendo a posição competitiva das organizações no mercado.

No contexto atual, podemos citar como exemplos o Apoio Direto da FINEP e o Apoio do BNDES. Por meio do programa MAIS INOVAÇÃO, ambas as instituições anunciaram novas linhas de crédito e revisaram as condições de pagamento. Os termos desses empréstimos, incluindo prazo de carência, amortização e encargos financeiros, são ajustados conforme o perfil da instituição e o projeto proposto. Quanto maiores forem as incertezas tecnológicas associadas ao projeto, mais favoráveis são as condições oferecidas. No contexto do Apoio Direto da FINEP, por exemplo, existem linhas que oferecem taxas de juros de aproximadamente 4% a.a. (vinculadas à TR), com 4 anos de prazo de carência e até 16 anos para a amortização, que são condições extremamente atrativas e alinhadas com a natureza incerta de projetos de inovação.

Confira algumas destas oportunidades no texto: Finep Mais Inovação lança onze editais de subvenção econômica para empresas e ICTs.

Por fim, temos os recursos humanos como forma de apoio direto. Em projetos de inovação tecnológica, o conhecimento especializado é frequentemente vital, especialmente em iniciativas altamente inovadoras. Uma estratégia de apoio direto é a concessão de bolsas para estudantes, professores e pesquisadores, visando integrar mestres e doutores em organizações privadas.

Para mapear ativamente essas oportunidades, existem ferramentas como o radar de fomento do Sistema OCB e o Radar de Oportunidades personalizado da ABGI. Estas ferramentas são alimentados continuamente com informações sobre oportunidades de fomento à inovação, provenientes de diversas fontes como agências de fomento e bancos de desenvolvimento, tanto nacionais quanto internacionais.

Apoio financeiro indireto

São benefícios fiscais concedidos pelo governo, por meio de isenção, dedução, compensação e outros meios que reduzem a carga tributária de organizações e instituições que investem em atividades inovadoras. Neste contexto, temos como exemplo a Lei do Bem. A Lei do Bem oferece redução de IRPJ e CSLL com base nos dispêndios de projetos que possam ser considerados de P&D pela Lei. Por meio desta dinâmica, 20,4% a 34% dos valores investidos no projeto durante o ano base, podem ser recuperados no ano subsequente através da redução da carga tributária.

Especificamente para que as cooperativas utilizem a Lei do Bem, o IRPJ e a CSLL que incidem sobre os atos não cooperados precisam ser apurados pelo Lucro Real, é necessário ter impostos a pagar, além de estar em regularidade com os tributos e CNDs.

Outras formas de apoio

Existem também outras formas de apoio, que vão além do estímulo financeiro. Por exemplo, a rede de cooperação promove trocas entre atores inovadores, como cooperativas, ICTs, empresas, Universidades, entre outros. Encomendas tecnológicas possibilitam que o setor público contrate o desenvolvimento de pesquisa específica.

O compartilhamento de infraestrutura facilita parcerias entre cooperativas, espaços makers e parques tecnológicos. Também existem programas específicos que oferecem serviços tecnológicos com subsídios, e o mercado de créditos de carbono, que transforma práticas sustentáveis em receita.

Etapas para realizar a captação de recursos com sucesso 

1. Tenha uma estratégia de inovação e estabeleça a carteira de projetos de inovação que a cooperativa quer desenvolver

A definição da carteira de projetos deve espelhar os objetivos estratégicos da organização, guiados pela identificação de necessidades e oportunidades de desenvolvimento. Não se criam projetos meramente para aproveitar benefícios de mecanismos públicos de estímulo ao desenvolvimento e inovação tecnológica. Ao contrário, a concepção do projeto deve ser a resposta ao surgimento de oportunidades para a organização ou à necessidade de superar obstáculos em suas atividades.

2. Analise cada projeto para determinar quais fontes de recursos podem ser acessadas para financiá-lo e monitore ativamente as oportunidades disponíveis

Neste ponto, a organização deve avaliar qual projeto vai financiar com recursos próprios, quais podem ser encaminhados para editais não-reembolsáveis e quais podem ser objeto de um pedido de financiamento reembolsável.

Para alinhar um projeto a um edital (recursos não-reembolsáveis) ou financiamento (recursos reembolsáveis), primeiro observe a natureza jurídica, os setores envolvidos e o tamanho das organizações que podem propor. É crucial entender como o órgão financiador classifica o porte, seja pelo número de colaboradores ou faturamento.

A concordância entre o objetivo do projeto e o propósito do edital é outro ponto crítico, pois muitos editais de recursos não-reembolsáveis têm focos temáticos específicos. Contudo, os recursos reembolsáveis direcionados a fomentar projetos de inovação tendem a ser mais abertos, aceitando vários temas desde que a inovação, a relevância e o potencial de mercado sejam claros.

Avalie também a disponibilidade da documentação exigida na etapa de apresentação da proposta e na etapa de assinatura do contrato, para evitar a dedicação de uma equipe à elaboração de uma proposta sem nenhuma chance de aprovação, em função de a empresa não possuir todos os documentos exigidos pela fonte financiadora.

Outros itens importantes a verificar são os prazos das oportunidades, as contrapartidas exigidas para os participantes do projeto (tipo e percentual) e os critérios de avaliação das propostas.

Vale destacar que, para o mapeamento das oportunidades, existem ferramentas alimentadas com dados advindos do monitoramento diário das agências de fomento e oportunidades disponibilizadas, como o Radar de Financiamento do Sistema OCB e o Radar de Oportunidades personalizado desenvolvido sob demanda da ABGI Brasil. Dentro destas ferramentas, são consolidados dados sintetizados que ajudam na tomada de decisão de forma mais simplificada, sem a necessidade de avaliar todo o texto dos editais e manuais das oportunidades.

3. Elabore a proposta conforme os critérios específicos da oportunidade de interesse

Antes de colocar a mão na massa e iniciar a elaboração da proposta, é importante levantar as informações sobre o projeto e definir o seu escopo, quem são os participantes, quem deve ser envolvido e quem pode contribuir com informações para o detalhamento da proposta.

Ao planejar e elaborar um projeto, é crucial ser detalhado, claro e conciso. Cada seção do descritivo técnico e do planejamento deve ser cuidadosamente pensada para garantir que o projeto seja bem recebido pelas agências de fomento. Para isto, é necessário demonstrar capacidade de planejamento e execução da proposta e, para isto, trazemos algumas dicas para exigências que são transversais para elaboração de projetos para captação de recursos no ecossistema de inovação.

A elaboração da proposta deve considerar os descritivos técnicos e os descritivos financeiros:

Descritivos Técnicos

  1. Definição do Título do Projeto: O título deve ser claro, conciso e refletir a essência do projeto. Ele serve como a primeira impressão para potenciais financiadores e deve destacar a inovação proposta.
  2. Descrição da Organização: Uma descrição detalhada da organização, incluindo informações institucionais, instalações físicas e histórico de atuação, é crucial para estabelecer credibilidade.
  3. Descrição do Objetivo: O objetivo deve ser claro e direto, indicando o que o projeto pretende alcançar sem entrar em detalhes sobre a metodologia de desenvolvimento.
  4. Descrição da Justificativa: A justificativa destaca a relevância do projeto, os benefícios esperados e a necessidade de financiamento.
  5. Descrição da Inovação Tecnológica: Esta seção destaca o que torna o projeto único e inovador, diferenciando-o de soluções existentes no mercado.
  6. Descrição da Metodologia: A metodologia fornece um mapa detalhado de como o projeto será executado, delineando cada etapa necessária para alcançar os objetivos.
  7. Descrição da Equipe e Parcerias: Esta seção destaca a competência da equipe do projeto e quaisquer parcerias que possam complementar as habilidades da equipe interna.
  8. Definição das Metas, Etapas e Cronogramas:
    • 8.1.  As Metas são os marcos importantes que se deseja alcançar durante a execução do projeto. Elas são definidas de acordo com os objetivos do projeto e, em conjunto, contribuem para a realização desses objetivos. É crucial que as metas sejam definidas com prazos claros para sua execução e que possam ser mensuradas em relação ao progresso em suas respectivas etapas. Geralmente, a execução de uma meta é comprovada por meio de entregável e, neste sentido, é importante definir o que se espera entregar ao finalizar a meta – um protótipo? Um vídeo demonstrando funcionalidades? Um relatório técnico? …
    • 8.2. As Etapas, por outro lado, são os passos ou atividades necessárias para alcançar cada meta. Cada meta geralmente se desdobra em várias etapas, que precisam ser cuidadosamente planejadas e executadas para se chegar à meta.
    • 8.3. Depois de definir as metas e etapas do seu projeto, o próximo passo é criar um cronograma de execução. Ao planejar um projeto, é vital desdobrar cada meta em etapas específicas, cada uma com um prazo estabelecido, assegurando que todas sejam consideradas. No desenvolvimento do cronograma, é crucial ponderar sobre o tempo que cada etapa demandará e a sequência correta de execução, visto que algumas etapas podem ser condicionadas por outras. Além disso, o cronograma não é imutável; após o início do projeto, é essencial monitorá-lo e ajustá-lo conforme a evolução, garantindo que as metas permaneçam alinhadas e pertinentes. Vale destacar também que, além de ser utilizado para monitoramento das atividades caso o projeto seja aprovado, um cronograma bem elaborado demonstra capacidade de planejamento. Isso está intimamente ligado à capacidade de execução, o que pode trazer vantagens durante a avaliação pelas agências de fomento.

Descritivos financeiros

  1. Identificação dos Recursos Necessários: Planeje e identifique os recursos essenciais com base no cronograma, elaborado com base nos objetivos do projeto. Estes podem ser categorizados em: Recursos Humanos, Materiais, Financeiros e Parcerias. Por exemplo, ao desenvolver um projeto, considere especialistas necessários, equipamentos, custos operacionais e possíveis parcerias com instituições.
  2. Elaboração do Orçamento: Quantifique o custo de cada recurso. Liste todas as atividades do projeto e identifique os recursos para cada uma. Estime a quantidade e o custo unitário, considerando também os custos indiretos. Mantenha o orçamento realista, evitando subestimações que possam causar problemas futuros.
  3. Cronograma Físico-Financeiro: Este é um instrumento vital que reflete o tempo e os recursos financeiros para cada etapa do projeto. Assegure-se de que esteja alinhado com os prazos das agências de fomento. Um cronograma bem estruturado não só facilita a gestão do projeto, mas também evidencia sua capacidade de planejamento e gestão.

O cronograma físico-financeiro deve ser vinculado às atividades do projeto, refletindo o tempo necessário e os recursos financeiros para a execução de cada etapa. É importante lembrar que a liberação de recursos financeiros por parte das agências de fomento geralmente ocorre em parcelas, que estão vinculadas aos dispêndios atribuíveis às atividades realizadas durante cada período. A primeira parcela é normalmente liberada sem condicionantes, enquanto as subsequentes estão associadas à aprovação da prestação de contas da parcela anterior. Portanto, é crucial prever com segurança os recursos que serão necessários para a execução plena das atividades previstas em cada uma das etapas do projeto.

4. A estratégia é o principal caminho

A captação de recursos para inovação é uma jornada que demanda estratégia, planejamento e conhecimento das oportunidades disponíveis. As cooperativas, ao abraçarem a inovação, não só reforçam sua relevância no mercado, mas também perpetuam os valores de solidariedade e colaboração. Para superar os desafios, é fundamental cultivar uma cultura de inovação robusta, alinhada com os objetivos estratégicos e respaldada por recursos adequados. Ao seguir as etapas delineadas, desde o conhecimento das oportunidades de fomento até a elaboração de propostas bem estruturadas, as cooperativas estarão mais aptas a acelerar sua trajetória inovadora por meio da captação de recursos para este fim, garantindo um futuro mais sustentável e competitivo no mercado.

5. Tenha um parceiro experiente

Precisa captar recursos para desenvolver projetos de inovação tecnológica na sua Cooperativa? A Abgi é sua parceira ideal com um time de consultores multidisciplinar, com um time multidisciplinar, e principalmente, com experiência em identificar e defender projetos de inovação aos órgãos de fomento.

Ajudamos sua cooperativa a acessar diversos instrumentos de financiamento, otimizar processos, criar ferramentas e realizar uma gestão estratégica dos recursos. Entre em contato conosco.

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